A dimensão trágica de Dilma Rousseff

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Enquanto circula pela Senado Federal um grupo de cineastas que produz um documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff, a tropa de choque da ex-presidente ensaia os passos e as falas que serão imortalizados na tela grande. Não é preciso ser um perito em comunicação humana para perceber que os partidários da ex-presidente estão falando para o futuro. Calculam a vitória da narrativa do golpe, que vai vir em dez, vinte, cinqüenta anos. Inexoravelmente. A mesma vitória que Getúlio Vargas, o mais violento e autoritário presidente da história do Brasil, obteve com sua carta e seu suicídio. Décadas depois, ninguém nem sabe quem morreu nas mãos do Estado Novo, mas todo mundo sabe quem deu direitos trabalhistas aos trabalhadores do Brasil.

Quando topa participar de um psicodrama hagiográfico sobre seu martírio político, Dilma também mira o futuro. A história que a absolverá, citando um ex-ditador cubano. Faria melhor se mirasse o presente e tentasse compreender o que a trouxe à tragédia política em que se encontra neste momento.
A trajetória de Dilma é a trajetória de uma heroína trágica, quase perfeita em sua acepção aristotélica. Em primeiro lugar, Dilma, como os heróis trágicos da velha Grécia, é “nobre”. Não no sentido de bem-nascida (embora tenha sido educada em francês), mas tem a grandeza reconhecida de sua luta contra a ditadura, fato muito explorado por seus biógrafos, defensores e puxa-sacos em geral. Dilma lutou contra os militares e é considerada em alta conta por sua coragem. A narrativa da bravura de Dilma culminou na alcunha de “coração valente”. A máquina da propaganda usou diuturnamente esse aspecto biográfico da ex-presidente para enaltecê-la. Até os oposicionistas, com raras exceções, embarcam na tese da superioridade moral da mulher que roubava bancos para derrubar o regime. Pouco importa que o regime proposto seria igualmente autoritário. Os historiadores e os cineastas absolveram os guerrilheiros.

A segunda característica trágica de Dilma é a falha de caráter. No caso da ex-presidente, trata-se de uma postura de descomedida autoconfiança, aliada a uma igualmente descomedida falta de tato político. Na concepção moral aristotélica, Dilma tem coragem em excesso, o que a faz não corajosa, mas temerária (ops!). Dilma é, portanto, imprudente. Suas virtudes estão destemperadas. Isso indica que ela poderá cometer erros trágicos. O herói trágico comete erros trágicos por ter características de caráter que comprometem decisivamente seu juízo e sua ação. Cheia de si, Dilma se considera autônoma em relação ao seu criador político e capacitada para solucionar todos – sem exceção – os problemas do país. Não precisa de conselhos, não precisa que revisem suas idéias. Não teme o seu próprio equívoco. Apenas precisa que executem seus cálculos estratégicos para que tudo saia conforme o planejado. É esse traço de caráter que orienta a maior parte das decisões equivocadas que trouxeram Dilma ao cadafalso neste 31 de agosto.

A terceira característica trágica de Dilma é justamente o erro. O erro trágico, na poética aristotélica, é a ação cometida pelo personagem, informada por sua falha de caráter, que acabará por culminar em sua destruição. O erro trágico que determina a queda de Dilma ainda é difícil de precisar, mas eu tenho para mim que, do ponto de vista poético, Dilma comete seu erro trágico ao decidir se candidatar à reeleição, contrariando o PT e Lula. Dilma toma essa decisão quando, apesar de preservar uma popularidade razoável, o país já dá sinais de fragilidade, sem que ela admita perceber. Tudo que forma a base jurídica do impeachment está relacionado a uma luta pela reeleição, reconfigurada em combate a uma suposta crise internacional que só surge depois da vitória de 2014.

Depois da vitória eleitoral, vem a peripécia, a virada trágica da fortuna, que desencadeia o processo de queda em decorrência do erro. Aí temos a quarta característica da tragédia de Dilma: a virada na sorte. A desgraça é prenunciada pelo 7×1. As commodities baixaram de preço. A rapinagem nas estatais foi descoberta. O povo começou a manifestar o desejo de fazer terra arrasada da classe política brasileira. Milhões na paulista, panelaços, perda do controle na Câmara, o afastamento gradual dos aliados e a formação de um núcleo de poder em torno do vice-presidente são reflexos do erro fundamental. A falha de caráter que ensejou o erro agora começa a sinalizar uma catástrofe pessoal.

A quinta característica trágica de nossa história é chamada por Aristóteles de anagnórise ou reconhecimento. O reconhecimento deveria ter se dado no momento em que Dilma passa a ser pressionada por Lula e por parte da base aliada, especialmente aqueles diretamente envolvidos no Petrolão, para resolver a crise econômica adotando medidas de austeridade e com isso aplacar a crise política. Dilma foi instada a agir e não conseguiu tomar uma decisão que solucionasse seu problema. A maior parte de suas iniciativas, algumas tomadas sem a menor convicção, deu errado ou não surtiu o efeito necessário. Em momento algum, porém, por conta da trágica falha de seu caráter, Dilma admitiu explicitamente que errou. Pode ser que no fundo de sua consciência ela já tenha conhecido e reconhecido o seu erro. Externamente, é certo que não. A sua visita ao Senado, o ápice dramático de sua tragédia, não revelou à platéia qualquer reconhecimento de sua culpa. Por não reconhecer seus erros, prorrogou e acentuou sua catástrofe.

Cada recusa a um reconhecimento aprofunda a dimensão da catástrofe. Primeiro, Dilma tentou fazer um ajuste econômico no qual não conseguia acreditar. Depois, tentou interferir atrapalhadamente na eleição para presidente da Câmara, criando um antagonista que desempenhou papel ambíguo em sua queda (e que pode ter sido parcialmente reabilitado junto com ela, aos 48 minutos do segundo tempo). Depois, vimos o governo ir gradualmente se paralisando diante da pressão popular, da falta de comando e da inabilidade política de nossa heroína trágica. A catástrofe, a solução final do conflito dramático, é o impeachment. Dilma caiu. Deixou de ser presidente, arruinou a si mesma, arruinou ao seu partido, arruinou o país e o deixou nas mãos de um grupo político que seu criador tentara conquistar pela força do dinheiro.

Do ponto de vista do público que assiste uma tragédia, a anagnórise e a catástrofe deveriam inspirar uma catarse. O sentido dessa palavra é ambíguo. Geralmente traduzido como purgação ou purificação dos sentimentos, a catarse indicaria o momento em que a platéia, emocionalmente aliviada pelo desfecho da tragédia, purgar-se-ia de sentimentos exagerados, especialmente aqueles inspirados pelas características do herói trágico. Herói toma conhecimento de seu erro, recebe a devida “retribuição” e a história se encerra em tom negativo para inspirar o povo a não cometer o mesmo erro. Num mundo ideal, Dilma se desculparia pelos equívocos de seu governo e articularia uma nova forma de governar. Ou renunciaria antes da abertura do processo de impedimento, demonstrando o desprendimento que lhe justificaria alguma grandeza.

Mais recentemente, questiona-se se o sentido de catarse seria mesmo esse de terapia sentimental. O debate é complexo e não cabe aqui, mas a trajetória catastrófica de Dilma enquanto heroína trágica, que avança destruindo tudo o que representa politicamente por ser temerária, imprudente, incapaz de admitir seus erros, é uma narrativa importante para a terapia catártica da política brasileira. Aí reside a grandeza transcendente e a importância do momento histórico, para além das conseqüências materiais mediatas e imediatas. Tão temerária e incapaz de raciocinar em termos políticos, Dilma perdeu o controle sobre a sua própria biografia no vão esforço de preservar a sua própria biografia. É honesta, mas foi eleita com dinheiro roubado. É corajosa, mas não se expõe ao escrutínio popular. É competente, mas tomou medidas que comprometeram severamente a economia nacional. Num lampejo de final feliz, Dilma teve os direitos políticos poupados, mas deixou um rastro de destruição por onde passou.

No mundo conteporâneo, fragmentado e dessacralizado, a busca pela Verdade foi substituída por uma luta de narrativas. Pouco importam os fatos em si, pouco importa o encadeamento lógico dos argumentos, desde que os elementos estéticos do discurso narrativo cumpram o objetivo de galvanizar as emoções da audiência. Os dilmistas estão prontos para abraçar Dilma como vítima de contos de fadas, perseguida por bruxos, vampiros e outros monstros. Os antagonistas parecem dispostos a aceitar seu papel nessa narrativa em troca da cabeça de Dilma, que acaba de lhes ser entregue. E assim, Dilma acabou hoje, mas vencerá o conflito de narrativas. Passará para a história como vítima e não como a responsável única pelo abismo que cavou os próprios pés.

A verdade trágica de sua trajetória política vai restar guardada em algum lugar, até que o devido distanciamento temporal e a restauração dos princípios éticos e estéticos mais elementares da civilização humana permitam uma revisitação ao mito, já devidamente despido dos floreios ideológicos. Só então ouviremos corretamente a fábula da menina rica que virou militante comunista, da ex-militante que virou presidente da república, e que sem nunca conceder ao respeitável público um erro ou um equívoco que a humanizassem, construiu, com seus próprios tropeços, a destruição de quase tudo aquilo que lhe era mais precioso.

Qualquer dia eu faço um filme sobre isso.

Author: Bruno Simões

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