Escola com política

Em primeiro lugar, é importante salientar que não foi a esquerda que começou com esse movimento. O regime militar, que vigorou no país de 1964 a 1985, implantou duas disciplinas na grade curricular – Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira – as quais buscavam exaltar o nacionalismo enviesado praticado pelos mandatários da ocasião. Além disso, é fundamental discernir uma escola “sem partidos” de uma escola “sem política”.

Se não queremos que as nossas crianças e jovens sejam doutrinados por uma ideologia claramente orientada, precisamos estimular desde cedo que eles tomem contato com as mais diferentes formas de pensamento político e social e não “jogarmos fora o bebê com a água do banho”, como fizemos na redemocratização. Atualmente, não oferecemos as disciplinas ufanistas da ditadura, mas tampouco colocamos algum ensino das regras da política no lugar, acreditando que este é um dos componentes – junto com o futebol e a religião – que não deve ser discutido.

Esta situação favorece apenas àqueles que desejam, de alguma forma, conservar o atual estado de coisas, buscando se apoiar na ignorância – e no consequente afastamento -da população com relação à política para continuarem perpetrando seus negócios e negociatas bem distantes de qualquer fiscalização mais assertiva por parte da opinião pública. Nesse sentido, países com democracias mais consolidadas e desenvolvimento socioeconômico mais avançado que o nosso adotam, em seu currículo escolar, disciplinas e temas de cidadania desde a mais tenra idade.

Na Alemanha, por exemplo, as crianças de cinco anos de idade começam a ter aulas sobre “valores” para, ao concluir o equivalente ao nosso Ensino Médio, já estarem enviando projetos de lei para as Câmaras Municipais e buscando, dessa forma, a adoção de melhorias em seu entorno, por meio de políticas públicas de qualidade. Enquanto imaginarmos que o ensino de política nas escolas é restrito apenas a “regimes bolivarianos” ou “regimes protofascistas”, apenas estaremos contribuindo para uma alienação cada vez maior de nossos jovens com relação à política e, ao fim e ao cabo, à própria sociedade.

Diante disso, é urgente entendermos que a política precisa ser ensinada nas escolas, formando o cidadão para a participação democrática desde cedo. Afinal, se queremos que todos participem do jogo, precisamos treinar os jogadores antes de pedir que eles optem pela pura e simples torcida desinformada.  Tal postura seria muito mais produtiva que a ideia de “Fora Todos!”, assumida por parte da sociedade brasileira nos últimos tempos.

*Este texto foi originalmente publicado na Gazeta de Limeira em 09/06/2016, na Coluna Pólis, assinada pelo próprio autor.

Author: Leandro Consentino

Bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo.

Atualmente é professor do Insper, da FESP-SP e do Instituto Sidarta e Superintendente Executivo da Fundação Mario Covas

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