Editorial: afastamento de Dilma e governo Temer

O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff está sendo um passo doloroso, porém importante para nosso país. O Brasil afastou constitucionalmente uma presidente que fez uma gestão desastrosa e violou vários dispositivos da lei de crimes de responsabilidade. O processo foi atentamente acompanhado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), corte composta por 11 ministros, 8 dos quais indicados por Lula e Dilma. Nossas instituições aguentaram bem o enorme desafio. A sociedade civil participou de forma vibrante e pacífica desse importante momento histórico. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal responderam aos anseios do povo e vêm cumprindo o seu papel de fiscalizar os desmandos do poder executivo, em que pese o envolvimento de muitos dos congressistas, incluindo alguns dos mais importantes, em casos de corrupção. Do ponto de vista institucional, portanto, nossa democracia vai bem.

Temer e Dilma na posse

É verdade que o governo Temer já começa com problemas. O PMDB, afinal, foi o maior sócio do PT na era Dilma e no próprio Petrolão. É evidente que o novo governo padece das chagas do anterior, já que nasce da costela dele. Gostemos ou não, o Temer é o vice da Dilma, alçado à vice-presidência pelos mesmos eleitores que votaram no PT. Sete dos ministros de Temer foram também ministros de Lula e Dilma. PT e PMDB formavam a mesma base aliada até apenas dois meses atrás. Como não houve golpe, ou terceiro turno — mas impeachment —,Temer assumiu por ser o primeiro na linha sucessória. Em português bem claro: “é o que tem pra hoje”. O novo governo, portanto, já começa sob a espada de Dâmocles. Em tempos de sociedade civil vigilante, mobilizada e digitalmente conectada, o risco de Temer não chegar a 2018 é real.

Em seus primeiros movimentos, o novo governo já emitiu sinais preocupantes. É óbvio que seria importante ter mulheres e minorias representadas no gabinete ministerial. É desanimador ver investigados da Lava Jato virando ministros outra vez! Nesse contexto, é importante calibrar as expectativas. Temer é uma figura do establishment político e tem 75 anos de idade, o que o torna o brasileiro mais velho a assumir a presidência. Dificilmente o presidente em exercício representará a tão ansiada mudança que a sociedade pede, tampouco conduzirá o país à urgente agenda do mundo do século XXI. Na melhor das hipóteses, o governo-tampão de Temer estabilizará a economia e estancará a crise. Se for capaz de realizar essa proeza sem cometer erros graves em outras áreas, já terá surpreendido positivamente. Mudança de verdade poderá haver somente após novas eleições, previstas para 2018.

O que não da pra engolir de jeito nenhum é o argumento: “então deixa a Dilma no poder porque o Temer é pior”. De maneira nenhuma. É absolutamente necessário que Dilma e o PT paguem o preço pelos erros e crimes que cometeram. E que a marcha de responsabilização prossiga, doa a quem doer. Só assim vamos avançar. Nossas instituições não podem permitir que o PT possa, impunemente, cometer crimes de responsabilidade que envolvem destruir a economia brasileira, pilhar as empresas estatais e sacrificar a vida dos brasileiros, que sentem no bolso a falência do modelo petista de gestão da coisa pública. Pelo contrário, ao afastar Dilma pelos descalabros de sua gestão, nossa democracia positiva os mais novos valores políticos da sociedade brasileira: a intolerância com a corrupção e com o gasto público irresponsável.

Temer que se cuide! Estamos de olho!