Belas, desbocadas e do bar

Na edição desta semana, a Revista Veja deu mais uma de suas já recorrentes mancadas ao publicar o perfil de Marcela Temer, com o já icônico título “bela, recatada e ‘do lar'”. O flagrante machismo, notado já na primeira frase (“Marcela Temer é uma mulher de sorte. Michel Temer, seu marido há treze anos…”), conseguiu, em uma tacada, irritar mulheres de todo o espectro político-partidário do Brasil. A reação nas redes sociais veio rápida e ácida, com a postagem de fotos irônicas contendo famigerado título da Veja.

Os Filhos da Nova República passaram a bola para algumas das nossas colaboradoras. Pedimos depoimentos, reações e pensamentos sobre o assunto. Larissa Lacombe, Lívia Biancalana, Flávia Lorenzon e Ligia Toffoli responderam. O resultado, abaixo, fala por ele mesmo.

Larissa Lacombe

“Resisti a ler o artigo, por querer evitar a fadiga.
Assim como resisti, ao longo da vida, a perceber o papel que tantos a minha volta esperavam que eu desempenhasse. Fingia que não via.
Nasci numa família em que força é sinônimo de mulher. Lá em casa, as provedoras são elas. Mães, tias, irmãs, primas, sempre soubemos o valor do grito, do suor, do despentear, do sair cedo pra rua pra lutar pelo que é nosso.
Foi já adulta que entendi que por aí me preferiam falando baixo, sorrindo manso, contida. Quase ao mesmo tempo (quase!) aprendi a identificar os que me valorizavam inteira, do meu próprio tamanho.
Que triste ser recordada assim, pela Veja, em pleno 2016, do apelo que ainda tem  esse modelo de mulher-bibelô, bem bonitinha dentro da sua caixinha.
Que triste a sociedade que valoriza apenas a mulher calada, recatada, retraída. Perde o infinito que, em toda a nossa diversidade, temos a oferecer. Que Marcelas sigam felizes o caminho delas. Mas que todas saibamos da multiplicidade de modelos que podemos ser.”

Lívia Biancalana

“O problema não é Marcela.

Marcela pode ser quem ela quiser.

O problema é a mensagem de que o local de uma mulher na política é atrás de um grande homem, de preferência com uma saia na altura do joelho. Ainda mais em um país no qual o número de mulheres no Congresso nem chega aos 10%* (51 de 513), bem aquém dos 30% de quota de gênero obrigatória para os partidos.

Mulher forte então – que fala alto, fala o que pensa, toma atitudes controversas e age firmemente de acordo com sua moral – essa menos ainda, Merkel, Thatcher,  Hilary e Dilma que o digam. Aliás podem discordar o quanto quiserem da Dilma, só não usem de adjetivos que nada tem a ver com o exercício do cargo e com as políticas implementadas, chamá-la de feia só pega mal para quem o diz.

Por que, eu me pergunto, uma primeira dama negra, forte, que fala o que pensa só é louvável lá fora? Nunca vi matéria nenhuma de revista semanal falando mal de Michele Obama aqui no Brasil. Ou enaltecendo o quanto ela fica “na sombra” do marido.

E para você que, mesmo com toda mulherada chiando por ai, ainda acha que não é machismo, proponho um exercício: 1) Pegue o texto da Veja; 2) substitua todas as menções ao nome Michel por Fernanda; 3) substitua todas as menções ao nome Marcela por Felipe; e 4) leia novamente. Ficou puto? Pois é, nós também.”

Flávia Lorenzon

“Achei triste essa matéria, primeiro porque trata de um tema extremamente enraizado na nossa sociedade e demonstra todo o machismo por trás da mentalidade do papel da mulher. Nós vivemos anos quebrando paradigmas, especialmente no Brasil, e verbalizando várias questões sensíveis, como aborto e assédio, e parece que no fim, estamos regredindo. Eu pessoalmente não tenho nada contra ou negativo pra falar da Marcela Temer, ela faz ou escolhe o que quer, mas me incomoda como isso é pintado como um modelo a ser seguido, enquanto nós deveríamos ser livres pra sermos quem somos. Me toca pessoalmente também pelo fato de que eu mesma fui criada pra seguir uma carreira tanto quanto meus amigos homens, e foi uma escolha minha não ser do lar. Do jeito que a Veja escreve parece que isso é o ideal.”

Ligia Toffoli

“Achei o título a pior parte. Achei até que poderia ser irônico, mas o texto claramente enaltece Marcela Temer. É um perfil bastante superficial e curto, e, por isso mesmo, ruim.

Quanto à repercussão, me pergunto o quanto da indignação nas redes sociais pode ser atribuída ao fato de ser um perfil da “golpista” Veja sobre a mulher do Vice “golpista”. Como seria a reação a um perfil elogioso da ex-primeira dama do lar Marisa Leticia? Agora, uma coisa é fato: as mulheres tem todo o direito de serem “belas, recatadas e do lar”. E melhor serem elogiadas do que criticadas por isso. Mas estou esperando uma matéria mais completa sobre qualquer mulher que se destaque publicamente em razão da função do marido.”

Author: Convidados

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