A agonia da esquerda brasileira  

 

O primeiro semestre de 2016 será um dos mais importantes da história política brasileira. Começou marcado com a maior manifestação popular de sua história, com pesadas críticas a Lula e a Dilma, porém sem poupar Alckmin e Aécio de uma boa dose de vaias. Caminhou com o PMDB, partido do vice-presidente da República, tendo anunciado sua saída do governo, sendo o principal patrocinador do processo de impeachment. Parece agora terminar com o PMDB no controle do Palácio do Planalto.

A despeito do fervor da circunstância, aumentando dramaticamente a chance de qualquer analista cair em erro, as raízes deste histórico ano são múltiplas e, muitas delas, antigas, ilustrando uma profunda crise de ideias no país.

 

SP - PROTESTO FORA DILMA - GERAL - Protesto contra o governo do PT e fora Dilma organizado pelos movimentos Brasil Livre, Vem Pra Rua e Revoltados ON LINE, na Avenida Paulista em São Paulo, SP, neste domingo (16). 16/08/2015 - Foto: PAULO LOPES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

SP – PROTESTO FORA DILMA – GERAL – Protesto contra o governo do PT e fora Dilma organizado pelos movimentos Brasil Livre, Vem Pra Rua e Revoltados ON LINE, na Avenida Paulista em São Paulo, SP, neste domingo (16). 16/08/2015 – Foto: PAULO LOPES/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

 

No turbilhão da democratização brasileira, PT e PSDB foram os principais veículos dos anseios progressistas no país. Em 1980, sem ainda resolução dos problemas fundamentais do século XX, como saneamento básico, educação e saúde, além das enormes desigualdades sociais, eram mínimas as chances de uma competição esquerda x direita.

 

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Assim, sem a concorrência de um projeto conservador, a disputa no Brasil ocorreu dentro da esquerda, diferentemente, por exemplo, da democratização espanhola, em que surgiu o duelo entre PP, conservador, e o PSOE, progressista.

Se o contexto brasileiro definiu uma tendência progressista, ele alterou profundamente as suas características no país. No mundo, a classe operária foi a grande base apoiadora dos progressistas. Este vasto grupo compunha nos países desenvolvidos a base de sua pirâmide social. O Brasil, contudo, era muito diferente. A base no atlântico norte era, na maior nação do hemisfério sul, parcela significativa do topo. Assim, a esquerda no país nasceu em sua elite. O PSDB cresceu na classe média, ao passo que o PT teve como grande base os operários na rica indústria paulista, os funcionários públicos, além do apoio da igreja católica.

A ascensão do PT à presidência do governo federal correspondeu à vitória na luta pelo voto popular. A capitulação tucana foi admitida involuntariamente por um dos seus maiores expoentes, José Serra, ao adotar como slogan “depois do Lula vem o Zé”. O PT, nascido na elite brasileira, chegava ao povo. O PSDB, também criado em berço de ouro, tomava outro rumo, se afastava.

Reforçado por uma base efetivamente popular, o PT expandiu os programas sociais iniciados nos tempos tucanos, tornando-os, de fato, parte efetiva de sua agenda. Paradoxalmente, a disputa de poder dentro do segmento progressista abriu uma janela para o atraso. No lugar de uma aliança PT-PSDB, criando uma frente progressista, foram construídas conexões tortuosas com partidos do atraso, mais afeitos à partilha patrimonialista do Estado.

Em termos de projeto, ao se aliar com o que deveria combater, a esquerda regrediu.

O PMDB, continuação do MDB, tornou-se um enorme partido de conveniência, capaz de aglutinar diversas correntes secundárias do pensamento nacional e, ao mesmo tempo, inúmeros grupos patrimonialistas. Assim, como o PFL na gestão FHC, o PMDB foi o partido que viabilizou o governo Lula.

 

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Esta foi a maior traição que o progressismo brasileiro cometeu. O princípio universal do seu pensamento é o desejo de uma vida maior para todos. Em uma simplificação grosseira, é considerar que a baixa produtividade não significa apenas salários diminutos, mas o potencial de um ser humano inteiro desperdiçado. Não há, evidentemente, uma definição fechada. No entanto, qualquer que seja a linha de pensamento, de Amartya Sen a Mangabeira Unger, a prática da esquerda no Brasil foi diferente.

O sucesso eleitoral do PT acabou viabilizando a implantação de um projeto envelhecido: um sonho de um fordismo tropical, semeado pelo BNDES, atenuado pelo encanto inebriante do assistencialismo. Ao estilo pai dos pobres, mãe dos ricos, o principal partido progressista do Brasil, optou por políticas antigas, desenhadas no Atlântico Norte após a 2a. guerra mundial. Em um mundo do Vale do Silício, de Waze e Facebook, de Embraer e suas cadeias produtivas integradas, o resultado acabaria por se mostrar desastroso para o país.

A ausência de projeto progressista, que guie suas políticas públicas, assim como, seja criticado por eventuais conservadores, torna a política acéfala. O PT continua sequestrado pelo projeto pessoal de suas maiores lideranças. O PSDB, perdido, não completa sua transição para a direita – pouco promissora politicamente em um país com tanta desigualdade – nem retoma sua posição progressista.

O PMDB, dominado por suas correntes patrimonialistas, assistiu de maneira privilegiada o desenrolar dessa história, coniventemente, da cadeira da vice-presidência.  O desgaste acelerado das correntes progressista abriu, inclusive, a oportunidade única de chegar ao topo do poder. Dilma e Aécio, os últimos candidatos a presidência por PT e PSDB, naufragam, cada um em seu ritmo.

Neste ano, as vaias foram para todos do sistema político brasileiro, com raríssimas exceções. Não há reforma política que resolva a falta de conteúdo, de um projeto nacional moderno, que polarize e norteie o sistema político. Sem conteúdo novo, com imaginação institucional, divinizando o homem, não há como avançar. Como disse Sêneca, não existe vento favorável a quem não sabe aonde deseja ir. A crise do progressismo é o verdadeiro drama brasileiro.

 

GUSTAVO ANDREY FERNANDES, 34 anos, é professor de Administração Pública da FGV/EAESP. Pós-doutor pela Harvard University e pelo Kings College London.

 

Author: Convidados

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