Os atentados em Paris e as lições da história recente

Por Guilherme Casarões

“Um ato de guerra contra a França”. Com essas palavras, o presidente François Hollande definiu os atentados do Daesh (Estado Islâmico) em Paris. Em seguida, o script esperado: fechou as fronteiras, decretou estado de emergência, iniciou investigações em busca da identidade dos terroristas, intensificou os bombardeios contra alvos na Síria e considerou, inclusive, a possibilidade de alguma operação terrestre com o auxílio de Washington e Moscou. Ontem, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, advertiu sobre o risco de um atentado com “armas químicas e biológicas”.

Essa história não é nova. Já a vimos logo após o 11 de setembro de 2001, quando o presidente George W. Bush assinou a Lei Patriótica, que cerceou liberdades individuais, e procedeu à invasão do Afeganistão em busca da Al Qaeda. Um ano e meio depois, tropas americanas desembarcaram no Iraque, sob alegação de que Saddam Hussein, suposto patrocinador do terrorismo internacional, possuía um arsenal químico e biológico que colocava em risco a segurança dos Estados Unidos.

Conhecemos o desfecho da “guerra contra o terror” dos norte-americanos e seus aliados. O Iraque é um Estado falido, sem qualquer sombra da democracia que o ocidente algum dia lhe prometeu, rasgado por conflitos sectários e pela proliferação do terrorismo. Este foi o solo fértil de onde brotou o Daesh – um grupo mais estruturado, mais radical e com mais recursos que a Al Qaeda, do qual ele deriva.

O Daesh combina três elementos que o tornam particularmente perigoso. O controle sobre campos petrolíferos assegura recursos em abundância para a contínua expansão territorial do grupo, que hoje domina largas faixas do Iraque e da Síria, bem como cidades importantes, como Mosul e Raqqa. A ideologia wahhabista, uma vertente jihadista radical e minoritária originária da Arábia Saudita, busca legitimar as atrocidades a partir de uma interpretação deturpada do Islã e lastrear o recrutamento de combatentes ao redor do mundo. Por fim, o manejo eficiente das redes sociais potencializa os efeitos dos atos de terror e abre um capítulo virtual que sustenta os conflitos do século 21.

Combatê-lo é difícil, mas não impossível. O primeiro passo é entender as lições da história recente. O uso da força sem a devida preocupação com a reconstrução e a estabilidade dos países atingidos e, sobretudo, com a vida de civis inocentes, cria condições para que o terrorismo se fortaleça e agrave o ciclo de violência.

Se uma solução militar contra o Daesh é inexorável, ela deve partir de três princípios fundamentais: ser uma ação coordenada entre os países que possuem interesses na região, como EUA, França, Reino Unido, Rússia e seus aliados regionais. Ser, ademais, uma ação que fortaleça quem hoje está efetivamente lutando em solo, como os curdos no Iraque e na Síria. Ser, finalmente, uma ação de longo prazo, que priorize a reconstrução dos Estados, nem que isso envolva repensar as linhas políticas que hoje dividem o mapa da região.

O segundo passo é não tratar o Daesh como um Estado. As estratégias de guerra convencional serão inócuas se não forem acompanhadas por tentativas sistemáticas de neutralizar o recrutamento de novos combatentes. Isso passa pelo aprimoramento das redes de inteligência, mas também envolve atacar as raízes sociais do problema na Europa, onde a xenofobia e a islamofobia são uma grave realidade. Presumir que são loucos ou extremistas religiosos é de um simplismo perigoso.

O terceiro passo é enfatizar, de uma vez por todas, que o Daesh não representa os muçulmanos. Muitos de seus combatentes não possuem qualquer vínculo com o Islã ou interesse pela religião. Mais que qualquer outra coisa, o jihadismo é uma forma de forjar a coesão de um grupo criminoso e, sob o véu de uma suposta irracionalidade fundamentalista, amplificar os efeitos de seus atos de terror.

O clamor da opinião pública francesa e global está empurrando a França para uma saída militar e para o endurecimento da política de refugiados. Ao sinalizar aos anseios da direita, Hollande se movimenta no tabuleiro eleitoral do próximo ano, em que a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, ganha força. Mas o crescimento da segregação dos muçulmanos na Europa, na contramão do projeto integracionista europeu, não pode ser o resultado da tragédia de Paris. Caso contrário, os terroristas terão vencido.

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Os Filhos da Nova República agradecem Guilherme Casarões pela contribuição.

Author: Convidados

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