Por menos consciência de classe

Rei do Camarote

Hoje respondi a uma enquete. Primeira questão: qual a minha classe social? A pergunta era fácil: bastava comparar a renda familiar com o critério do IBGE. Acima de 20 salários mínimos é classe A, acima de 10 salários é classe B, e assim por diante.

Mas nem sempre foi tão simples assim. Na escola, minha professora de história ensinou que a sociedade se divide em duas classes sociais: a burguesia são os detentores dos meios de produção, e o proletariado são os trabalhadores empregados pela burguesia. Perguntei a que classe minha família pertencia, já que meu pai é médico, não detém nenhum meio de produção e nem é empregado por ninguém. “Ele é um pequeno-burguês”, sentenciou a professora, sem esconder seu escárnio.

Fui um exemplar pequeno-burguês da baixa classe A: estudei numa boa escola privada e passei no vestibular de uma boa universidade pública. Todos os meus colegas de escola cursaram faculdade, embora poucos tivessem qualquer vocação acadêmica.

No Brasil, nós vivemos segundo a classe social a que pertencemos. A classe A faz faculdade, a classe C faz curso técnico. A classe A não usa os espaços públicos: passeia no shopping, diverte-se no camarote. A classe C não vai a Paris, nem à Disney: quando junta algum dinheiro, compra um iPhone, troca de TV ou dá entrada no primeiro carro. Construímos um país de castas sociais que não se misturam. Nossos amigos nunca estão a duas classes de distância.

Crédito: http://ofunill.blogspot.com

Crédito: http://ofunill.blogspot.com

Alguns membros da classe A adquirem “consciência social” e passam a reforçar o ódio entre as classes. Culpam os ricos pela miséria dos pobres e arrogam-se o direito de chamar seus amigos de “coxinhas”.

Não, Brasil, tá tudo errado. Precisamos abandonar esse nosso fetiche pela classe social.

Um bom começo seria levarmos a educação finalmente a sério. Se as escolas públicas fossem boas, a elite não precisaria isolar seus filhos nas escolas particulares. Se o rico e o pobre crescessem lado a lado, não veriam um ao outro como um estranho. Com o dinheiro que já gastamos em educação, nossas escolas deveriam ser exemplares!

Classe C

Depois, precisamos cuidar dos nossos espaços públicos. Já passou da hora de resolvermos a tragédia que é a nossa segurança pública: o Brasil é o país onde mais se cometem assassinatos no mundo! A insegurança é um dos motivos que levam os ricos a segregar-se nos shopping centers e nos condomínios fechados.

Precisamos parar de pensar em classes sociais. Essa é uma ideia que nos separa e que cria obstáculos aos pobres para a superação da própria miséria. Somos todos compatriotas, estamos no mesmo barco. Somos pessoas muito mais complexas do que o saldo bancário ou a eventual posse de meios de produção. Somos todos cidadãos, e a nossa cidadania não pode ser de terceira classe.

Author: Lucas Neves

30 anos, Diplomata de carreira. Graduado em Relações Internacionais pela USP e Mestre em Diplomacia pelo IRBr, na área de Economia Internacional.

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