4 motivos que levaram o dólar acima dos 4 reais

Enquanto escrevo este artigo, o dólar é comprado e vendido a 4 reais e 5 centavos. Trata-se de uma alta de 71% em apenas um ano, levando o dólar à maior cotação nominal da história do Plano Real. Como chegamos a este ponto?

Antes de começarmos a ver as causas da alta do dólar, precisamos entender como o preço do dólar é formado. Assista ao breve vídeo que fizemos sobre isso, há apenas 5 meses, quando o dólar tinha acabado de romper a barreira dos 3 reais:

Nova Matriz Econômica

O primeiro fator da forte alta do dólar é a chamada “Nova Matriz Econômica”, praticada pelo primeiro governo da presidente Dilma. Para entendê-la, recomendo a leitura de artigo do próprio Ministro da Fazenda responsável pela sua concepção e execução, Guido Mantega.

Em linhas gerais, o governo acreditava que o dólar estava muito baixo e a taxa de juros, muito alta, o que incentivava o investimento especulativo no Brasil. O governo provocou uma queda da taxa de juros, esperando, com isso, afugentar aquele investidor estrangeiro que compra títulos da dívida pública brasileira para colher os juros. Isso resultaria em menor ingresso do “capital especulativo”, o que causaria uma alta do dólar. Segundo os planos do governo, a taxa de juros mais baixa incentivaria o investimento produtivo; e o dólar mais alto incentivaria as exportações, gerando crescimento. Ou, nas palavras do próprio Ministro:

“A era do ganho fácil e sem risco ficou para trás, apesar do choro e ranger de dentes dos poucos que se beneficiavam dessa situação”.
— Guido Mantega, Ministro da Fazenda em 2012

Esse era o plano, mas deu errado. A política monetária expansionista, ou seja, a diminuição da taxa de juros por vontade política resultou em aumento da inflação. O crescimento econômico não veio, e chegamos a um cenário de estagflação: recessão econômica associada a inflação alta. Essa deterioração do ambiente macroeconômico afugenta o investimento, seja ele produtivo ou especulativo, resultando na alta acelerada do dólar que vemos agora.

inflação-brasil-charge-dilme-mantega-economia

Irresponsabilidade fiscal

Um ponto positivo da Nova Matriz Econômica era a redução da carga fiscal, o que significa reduzir o peso do governo na economia, por meio do corte de impostos e, consequentemente, dos gastos do governo.

Infelizmente, isso ficou apenas no papel: durante o primeiro governo Dilma, a carga tributária¹A carga tributária equivale à arrecadação fiscal dividida pelo PIB. Ou seja, se o PIB de um país foi de 100 bilhões, e o governo arrecadou, por meio de impostos, 10 bilhões, a carga tributária foi de 10%. subiu ano após ano, quebrando recordes em 2012 e 2013.

Mesmo com o aumento da carga tributária, o governo teve dificuldades para manter o orçamento equilibrado. Em 2014, o governo estava prestes a descumprir a meta do superávit primário, e precisou abusar de sua maioria no Congresso, passadas as eleições, para mudar a meta. O Tribunal de Contas da União está analisando as chamadas “pedaladas fiscais”, ou seja, o calote do governo em bancos públicos para diminuir o déficit²Recomendo a leitura da entrevista do procurador Júlio Marcelo de Oliveira à BBC sobre o assunto das pedaladas fiscais., prática contrária à letra e ao espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Pedaladas

O resultado dessa irresponsabilidade fiscal é maior endividamento do governo, o que pressiona a taxa de juros para cima – repelindo o investimento produtivo – e faz aumentar o risco de calote – afastando o investimento em portfólio. O resultado é mais pressão sobre a desvalorização do real.

Crise política

Não bastasse o péssimo momento na economia do Brasil, ainda temos a crise política. O governo não tem controle sobre a base parlamentar para aprovar os pacotes de ajuste econômico necessários. Não tem, tampouco, o apoio popular para colocar em prática remédios amargos, como o corte de gastos, a demissão dos cargos de confiança e o aumento de impostos. Por fim, o governo parece não ter um projeto de solução para a crise: o recente encaminhamento ao Congresso de um projeto deficitário de orçamento para 2016 é apenas mais um exemplo do vaivém de iniciativas infrutíferas do governo federal.

“Os desafios políticos que o Brasil encara continuam a crescer, pesando sobre a capacidade e a vontade do governo de submeter ao Congresso um orçamento para 2016 compatível com a correção significativa de políticas sinalizada durante a primeira parte do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff”.
— Relatório da S&P sobre o rebaixamento da nota de crédito do Brasil

A crise política torna o governo incapaz de apresentar soluções para a conjuntura econômica ruim. Por isso, ainda não há luz no fim do túnel: não se sabe quando o país voltará a crescer, com a inflação sob controle a uma taxa de juros mais baixa. Nesse cenário, os investidores não têm confiança para colocar seu dinheiro no Brasil, acentuando a queda do real.

Presidente e Vice-Presidente

Presidente e Vice-Presidente

Conjuntura internacional

Até aqui, todos os três fatores apontados podem ser culpados ao governo. Mas o governo não tem culpa do quarto fator: a conjuntura internacional, desfavorável a países exportadores de produtos primários, como é o caso do Brasil.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos estão apresentando um bom desempenho econômico e anunciando aumento da taxa de juros. Isso tem levado a uma valorização do dólar frente às outras moedas da ordem de 20% no último ano.

Em segundo lugar, a China tem reduzido suas expectativas de crescimento. Aquele país é o principal destino das exportações brasileiras, e essa desaceleração chinesa resulta em menor demanda pelos nossos produtos. Com efeito, as exportações do Brasil para a China já caíram, neste ano, quase 20% em comparação ao mesmo período de 2014³Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, disponíveis aqui..

Por fim, a queda do crescimento chinês acentua a “crise das commoditiesCommodities são produtos cujos preços são uniformes em todo o mundo, pois são facilmente comercializáveis e não apresentam diferenças entre países produtores. Exemplos: metais, petróleo, soja, café, açúcar, farinha de trigo.. O Brasil é um grande exportador de gêneros alimentícios e de minérios. Na década de 2000, boa parte do crescimento brasileiro deveu-se à alta do preço das commodities. Nos últimos anos, os preços internacionais desses produtos vêm caindo, o que resulta em queda nas receitas de exportação do BrasilQueda de 7% em 2014 e de 16,6% no acumulado de 2015 até agosto. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, disponíveis aqui.. A queda de receita de exportações contribui para a valorização do dólar perante o real.

dolar-bate-real-crop

Conclusões

A cotação do dólar superou a barreira psicológica dos 4 reais. Essa é uma marca importante, pois significa a superação da máxima histórica de outubro de 2002. Rompida essa barreira, a marca converte-se em piso, abrindo caminho para uma possível continuação da alta do dólar.

Embora a conjuntura internacional seja um dos fatores para a alta do dólar, ela não explica a queda muito mais acentuada do real em comparação a outras moedas, mesmo se compararmos apenas com outros países em desenvolvimento.

São os fatores internos os maiores responsáveis pela atual cotação do dólar. Estamos pagando, hoje, pelos equívocos na condução da macroeconomia brasileira, no primeiro governo Dilma. Estamos pagando, também, pela irresponsabilidade fiscal do governo, sobretudo no ano passado, quando havia eleições a vencer. Por fim, temos, neste segundo mandato Dilma, um governo que já não governa, incapaz de propor e de aprovar as medidas necessárias para a superação da crise econômica.

Author: Lucas Neves

30 anos, Diplomata de carreira. Graduado em Relações Internacionais pela USP e Mestre em Diplomacia pelo IRBr, na área de Economia Internacional.

Share This Post On
Share This

Compartilhar

Compartilhe este artigo com seus amigos!

Shares