Grau de investimento – o que é isso?

O governo é um tomador de empréstimos. Como nós vimos no vídeo sobre a taxa de juros, as pessoas, os fundos de pensão e outros agentes econômicos emprestam dinheiro ao governo comprando os títulos da dívida pública. Depois de certo tempo, esses agentes econômicos descontam o título, e o governo devolve o dinheiro com um prêmio: os juros.

Imagine que você tenha mil reais para emprestar, e que tenha dois amigos pedindo dinheiro emprestado. O Armando tem um emprego estável, é uma pessoa responsável, com as contas em dia, e precisa dos mil reais para fazer um curso de especialização, que vai garantir uma promoção na empresa. Já o Bernardo faz bicos, não terminou a faculdade porque passava muito tempo no bar e quer os seus mil reais para pagar contas atrasadas de luz e de celular. Ambos prometeram pagar a dívida daqui a um ano e dar mais cem reais de juros. E aí: alguma dúvida de que você emprestaria o dinheiro para o Armando? É claro: o risco de levar um calote do Armando é muito menor!

Emprestar para o Bernardo é arriscado, pois daqui a um ano é muito provável que ele não tenha dinheiro para honrar a dívida. Para compensar esse risco, ele precisa pagar um prêmio maior. Digamos que ele prometa, daqui a um ano, pagar a dívida e dar mais 300 reais de juros. Aí é de se pensar: vale mais a pena emprestar para o Armando e receber os 10% de juros garantidos; ou dar o dinheiro para o Bernardo e ganhar 30%, mas com o risco de perder tudo, caso ele dê o calote? A resposta vai depender do seu apetite pelo risco, ou seja, do quanto você gosta de apostar.

Para qual deles você emprestaria o seu dinheiro?

Para qual deles você emprestaria o seu dinheiro?

Esse exemplo mostra como os juros pagos pelo tomador de empréstimo são um prêmio pelo risco. Ou seja, quanto maior o risco de calote, mais juros o tomador precisa prometer aos credores.

É fácil avaliar o risco de calote de um amigo que conhecemos bem. Mas calcular esse risco de um país é uma tarefa complexa, que exige conhecimentos profundos da macroeconomia e da política daquele país. É aí que entram as agências de classificação de risco.

Há, no mundo, três grandes agências de classificação de risco: a Standard & Poor’s (S&P), a Moody’s e a Fitch. Os investidores usam as classificações dessas agências para medir a segurança do investimento em empresas e na dívida dos países. Veja, no gráfico abaixo, as categorias de risco de cada agência e a posição do Brasil:

Agências de classificação de risco

Agências de classificação de risco. Fonte: G1.

Quando os títulos da dívida de um país têm uma classificação de “grau de investimento com qualidade alta e baixo risco”, o investidor sabe que pode comprar um título da dívida do governo desse país, porque o risco de calote é pequeno. Esses países costumam ter contas equilibradas; um sistema de instituições que não permitem ao governante abusar do dinheiro público; administração transparente com pouca corrupção; e uma situação política e econômica estável. Já que é seguro emprestar dinheiro para esses países, os investidores mais conservadores vão investir, mesmo recebendo juros baixos.

Segundo a S&P, o Brasil acabou de perder o grau de investimento. No jargão do mercado, o título da dívida brasileira virou junk, ou lixo, sucata. Isso significa que muitos agentes conservadores, como a maioria dos fundos de pensão, vão parar de emprestar dinheiro ao governo brasileiro. Afinal, um fundo de pensão não pode apostar a aposentadoria dos seus associados em um negócio arriscado!

Assim como o Bernardo, no exemplo acima, o Brasil terá de oferecer juros maiores para atrair investimentos. Assim, haverá uma piora do perfil do investidor que aposta seus recursos no Brasil: nosso país voltará a atrair o chamado capital especulativo, ou seja, quem emprestará dinheiro ao nosso governo será aquele investidor arrojado, buscando lucros rápidos e que tirará o dinheiro do nosso país ao menor sinal de instabilidade.

A perda do grau de investimento, portanto, poderá agravar a alta da taxa de juros. Como vimos no vídeo sobre política monetária, o aumento da taxa de juros leva a menos investimentos produtivos, menos consumo, mais desemprego e mais recessão.

pibinho inflacaoComo chegamos a essa tragédia?

Ao longo dos anos 1990, o governo brasileiro fez uma série de esforços para garantir a estabilidade da economia. No governo Itamar Franco (1992-1994), o Plano Real resolveu o problema crônico da hiperinflação. Nos governos Fernando Henrique Cardoso, dois marcos institucionais importantes para a estabilidade econômica foram a criação do regime de metas de inflação, em 1999, e a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000. Sobre esses assuntos, assista aos nossos vídeos sobre inflação e sobre política fiscal.

Por seis anos, o governo Lula deu continuidade ao legado de responsabilidade econômica de seus predecessores. Ainda candidato, em 2002, Lula publicou a Carta ao Povo Brasileiro, comprometendo-se com a melhora do ambiente de negócios no país. Em linhas gerais, a dupla Antonio Palocci (Ministro da Fazenda, 2003-2006) e Henrique Meirelles (Presidente do Banco Central, 2003-2010) deu seguimento à política de reponsabilidade fiscal e monetária. Por isso, em 2008, a mesma Standard & Poor’s foi a primeira agência de classificação de risco a conceder o grau de investimento ao Brasil.

O próximo Ministro da Fazenda, Guido Mantega (2006-2014), no entanto, alinha-se com a corrente “desenvolvimentista”. Sob a presidência de Dilma Rousseff, inaugurou a Nova Matriz Econômica, que pretendia impulsionar o crescimento econômico por meio de juros artificialmente baixos; expansão do crédito ao consumo, usando os bancos públicos, e ao investimento, por meio do BNDES; dólar alto, para facilitar exportações e dificultar importações; e imposição de diversas barreiras à importação. Se você assistiu ao nosso vídeo sobre política monetária, já sabe que o resultado disso foi inflação alta, crescimento baixo e perda da credibilidade do país.

Dilma e Mantega, os responsáveis pela Nova Matriz Econômica

Dilma e Mantega, os responsáveis pela Nova Matriz Econômica

Como resultado, em 2014, o governo descumpriu a meta de superávit primário e só não incorreu em crime de responsabilidade, segundo a Lei de Responsabilidade Fiscal, porque abusou de sua maioria parlamentar para rever essa meta, após as eleições – mesmo assim, as chamadas “pedaladas fiscais” do ano passado estão sendo investigadas pelo Tribunal de Contas da União. Neste ano, em ambiente de crise política e econômica, o governo ameaçou apresentar uma proposta de orçamento com déficit primário para 2016, zombando da letra e do espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal. Levando em conta esse cenário, a agência S&P rebaixou a nota do Brasil, duvidando da “capacidade e vontade” do governo Dilma de cumprir o prometido ajuste econômico.

Moral da história: conquistar a credibilidade leva muito tempo e dá muito trabalho. Foram necessários cinco mandatos presidenciais para conseguirmos o selo de qualidade que nos permitia receber investimentos de longo prazo. Já destruir a reputação de um país é uma tarefa muito mais simples.

Author: Lucas Neves

30 anos, Diplomata de carreira. Graduado em Relações Internacionais pela USP e Mestre em Diplomacia pelo IRBr, na área de Economia Internacional.

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