Hoje e amanhã

A ideia de que as crises são portadoras, intrinsecamente, de oportunidades para o desenvolvimento de novas e melhores perspectivas já é deveras batida. Contudo, é importante ressaltar que o atual momento de dificuldade que atravessamos abre um importante caminho para a consolidação de nossa jovem democracia.

Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer que não pretendemos minimizar a gravidade do momento atual. Em primeiro lugar, vivemos uma grave crise socioeconômica em que os indicadores se deterioram a cada reavaliação com perspectivas de decréscimo de 2% do Produto Interno Bruto e uma inflação próxima aos 10 pontos percentuais.

Tais sinais podem levar as agências de risco a rebaixarem nosso “grau de investimento”, provocando uma impactante fuga de capitais que pode agravar ainda mais este quadro, gerando (ainda mais) desemprego e perda de poder aquisitivo no seio das famílias. Trata-se de uma crise muito nossa, ao contrário do que afirmam alguns, gerada por anos de distorções da política econômica sob Guido Mantega: a Nova Matriz Macroeconômica.

O segundo ponto é decorrência, em parte, do primeiro: a crise política. Diante da previsão bastante consistente de que tais problemas se agravariam esse ano, a então candidata à reeleição e atual presidente Dilma Rousseff pintou um cenário róseo caso triunfasse e descreditou os adversários que alertavam para tais inconsistências.

Com a vitória (bastante apertada) de Dilma, sobreveio a realidade e, ainda em 2014, começaram as duras medidas de ajuste que adentraram 2015 com um alcance e uma dimensão ainda maiores, gerando insatisfações até na própria base social do partido da presidente e seus braços sindicais.

Por fim, e de forma alguma menos importante, à crise econômica e à crise política seguiu-se a crise de valores em que a Operação Lava Jato – coordenando a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário – começou a desmantelar um esquema de proporções bilionárias no seio de nossa maior empresa pública: a Petrobras.

Assim sendo, um governo que já tinha dificuldades de negociar medidas impopulares com o Congresso Nacional, começou a ter que lidar com o desmonte de sua base parlamentar por sucessivos escândalos e revanchismo de antigos aliados agora desmoralizados. O caso mais emblemático é o do PMDB com Eduardo Cunha, que, rompido com o governo, comanda pautas-bomba e CPIs e Renan Calheiros que, ainda formalmente aliado, cobra a fatura do apoio com juros e correção. Isso sem falar em Temer e seu morde e assopra cada vez mais claro para Dilma e seu grupo político.

Com a escalada de um ajuste fiscal draconiano e sem nenhum ajuste moral à vista, o segundo governo Dilma hoje alcança o recorde negativo de popularidade: apenas 8% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom e 71% consideram-no ruim ou péssimo, segundo dados da Datafolha.

Mas, isto posto, qual o caminho que se abre em um momento como esse? Que oportunidade podemos vislumbrar diante do que alguns chama de “policrise”? A resposta está justamente na maneira como reagimos diante dela e como encaramos nossa responsabilidade nesse momento.

Podemos escolher a apatia imobilizadora que nos faz preferir ficar em casa e lamentar sobre os tristes rumos de nosso país, resmungando impropérios a cada reportagem sobre o desvio de dinheiro público. Afinal, a religião, o futebol e a política não devem ser discutidas, não é mesmo?

Ou podemos escolher o caminho da educação e da participação política e ter consciência que, se religião está cada vez mais em debate e o futebol sempre foi motivo de acaloradas discussões entre nós, cabe a cada um começar a questionar a maneira como as coisas públicas são geridas em nosso país.

Precisamos afastar, com urgência, a percepção de que política se faz de quatro em quatro anos e que a eleição confere legitimidade plena para que o eleito desempenhe suas funções como bem entender, como se houvesse recebido um “cheque em branco”. Afinal, como o próprio ex-presidente Collor lembrou a presidente Dilma, ele também foi legitimamente eleito.

É chegada a hora de mostrarmos a nossa cara, como cantava o imortal Cazuza. Que tal começarmos hoje para construirmos juntos um amanhã melhor?

*Este artigo foi publicado originalmente no jornal Gazeta de Limeira de 16/08/2015, na coluna Pólis, assinada pelo próprio autor.

Author: Leandro Consentino

Bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo. Atualmente é professor do Insper, da FESP-SP e do Instituto Sidarta e Superintendente Executivo da Fundação Mario Covas

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