Agosto: mês do desgosto

O mês que se inicia não costuma ser de bom agouro para a política brasileira. Foi em agosto – no dia 24 e no ano de 1954 – que Getúlio Vargas se suicidou em meio a uma grave crise política. Também foi em agosto – em um dia 25 e no ano de 1961 – que Jânio Quadros renunciou e deflagrou outra crise política, a qual levou o Brasil ao golpe militar de 1964.

Nesse sentido, o cenário atual parece repetir tais presságios aziagos para esta época do ano ao acender o sinal vermelho para a presidente Dilma Rousseff e seu grupo político, colocando-a na berlinda em vários flancos.  Com a aprovação popular abaixo dos 10% e os indicadores sócio-econômicos deteriorados, a presidente enfrentará duas grandes batalhas em agosto que poderão selar seu destino no mês seguinte.

A primeira delas é a resposta do Tribunal de Contas da União (TCU) para a explicação da presidente acerca das famigeradas “pedaladas fiscais” que cometeu ao longo de seu primeiro mandato e continua levando a cabo neste segundo. O parecer do TCU apenas baliza a decisão do Congresso Nacional sobre a aprovação das contas do governo da presidente, mas uma recomendação pela reprovação seria um fato inédito em nossa História política.

Já a segunda questão estaria ligada não às contas de governo, mas às contas de campanha de Dilma. Com a delação de Ricardo Pessoa – presidente da construtora UTC e chefe informal do suposto cartel formado pela empresa e suas congêneres para pilhar a Petrobras – a reeleição da atual presidente foi posta em suspeita, sendo acusada de receber recursos não contabilizados. Por essa razão, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve ouvir Pessoa e, mais adiante, pode se valer de uma delação premiada já acertada com Renato Duque, conhecido como o homem do PT na Petrobras.

Para piorar a situação para a presidente da República, a oposição parece ter decidido se pintar para a guerra. A convenção do PSDB, principal partido que se opõe ao governo petista, sinalizou que os adversários de Dilma querem sua cabeça e, de quebra, ameaçam também o pescoço do vice-presidente Michel Temer (PMDB).

Diante de tal quadro, a mandatária foi à imprensa e dividiu as manchetes com o senador tucano Aécio Neves em uma troca de farpas acerca de acusações sobre um suposto “golpismo” ora da oposição, ora da situação.  Tal fato parece ter evidenciado ainda mais a fragilidade da atual administração, culminando com a convocação do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que apura os desvios na Petrobras durante os governos petistas.

Com o governo no “volume morto” – palavras essas vindas do próprio padrinho político de Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e pressões cada vez maiores por sua saída, Dilma ainda deve enfrentar mais uma grande manifestação pedindo seu impedimento, a exemplo do que ocorreu em março e abril deste ano.

A marcha foi agendada para o dia 16 de agosto que, por meio de uma coincidência proposital, vem a ser o mesmo dia em que a população brasileira, no ano de 1992, contrariou o pedido do ex-presidente Fernando Collor de Melo para mostrar seu apoio de verde e amarelo e marchou enlutada, pedindo seu impeachment.

Os movimentos sociais ligados ao PT pretendem responder com uma manifestação no dia 20 de agosto, elevando o tom contra as oposições e acusando-as de buscar a ruptura do processo democrático, devido a uma suposta dificuldade em aceitar o resultado das urnas.

O “mês do desgosto”, como se vê, promete movimentar novamente o cenário político brasileiro e definir, com mais clareza, os rumos que a crise política deve tomar daqui em diante, com claros reflexos na fragilidade dos indicadores econômicos. Como afirmou o próprio Lula – num segundo surto de sinceridade em menos de um mês – “é bom se preparar, porque as coisas ainda vão ficar bem piores”.

 

*Este artigo foi publicado originalmente na Coluna Pólis, assinada pelo próprio autor na Gazeta de Limeira.

Author: Leandro Consentino

Bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo. Atualmente é professor do Insper, da FESP-SP e do Instituto Sidarta e Superintendente Executivo da Fundação Mario Covas

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