Si vis pacem, para bellum*

O pensador alemão Clausewitz afirmou que a “guerra é a continuação da política por outros meios”. Se estes conceitos têm alguma correlação entre si, é importante lembrar que nenhum estrategista sugeriu a abertura de vários flancos de batalha como uma medida prudente, embora seja exatamente o que a presidente Dilma Rousseff tem deixado ocorrer em seu governo.  Nesse sentido, cabe-nos analisar seis campos em que a presidente trava suas batalhas particulares:

1)      A opinião pública – Após o estelionato eleitoral que cometeu nas eleições passadas, Dilma amarga hoje 9% de aprovação a seu governo e uma disseminada insatisfação com qualquer medida que seu governo tome, ainda que as chamadas “agendas positivas” estejam timidamente aparecendo, como o Plano Safra e o Plano de Concessões.

2)      A economia – Uma tentativa de “ajuste fiscal”  sem uma sinalização clara de qual caminho tomaremos após o sacrifício com notícias cada vez mais alarmantes sobre (de)crescimento e inflação, todas oriundas da desastrada política econômica aplicada desde o segundo governo Lula. Mesmo a substituição de Guido Mantega por Joaquim Levy, os sinais positivos ainda não apareceram.

3)      Legislativo: O Congresso Nacional e o TCU (Tribunal de Contas da União ) – Além da hostilidade dos dois poderosos presidentes das duas casas – Eduardo Cunha (Câmara) e Renan Calheiros (Senado), a qual tem garantido seguidas derrotas ao governo nos plenários e comissões das casas, impõe-se a questão das “pedaladas fiscais” no TCU, órgão assessor do Congresso Nacional na tarefa de fiscalização do Poder Executivo.. Caso o tribunal, órgão assessor do Congresso, sugira a rejeição das contas presidenciais de 2014, será a primeira vez que age assim desde que a prática começou com Eurico Gaspar Dutra (1946) e pode abrir precedentes para uma ação penal contra a irresponsabilidade fiscal já movida pela oposição.

4)      Judiciário: Operação Lava Jato e TSE – Aqui temos dois flancos que se comunicam: o braço jurídico da Operação Lava Jato que apura os desmandos das empreiteiras em contratos da Petrobras e seus impactos que começam a aparecer, com a delação de Ricardo Pessoa, nas contas de campanha (diferentes das contas de governo supracitadas) da presidente Dilma. Assim sendo, o TSE, comprovadas as irregularidades, teria de se manifestar sobre a possibilidade de empossar o segundo colocado Aécio Neves – a exemplo do que fez no caso de Roseana Sarney em 2009 –  ou realizar novas eleições. E a Lava Jato não dá sinais de que esteja em seu epílogo…

5)      O PT e seu padrinho Lula – Os próprios aliados parecem ter abandonado Dilma à deriva, com manifestações cada vez mais contundentes e públicas de insatisfação partindo de seu próprio partido – o PT – e de seu padrinho político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De olho nos pleitos de 2016 e 2018, tudo que ambos menos querem é se deixar contaminar pela impopularidade avassaladora que a presidente hoje exibe. Lula, ensaia, assim, ser o neo-Getúlio que rechaça um Dutra de saias.

6)      O próprio governo – Com o avanço da Lava Jato,  a própria cozinha do Planalto resta desorganizada. Primeiro, foi o Ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante (PT) que teve de permanecer no Brasil, a contragosto, diante das denúncias de Pessoa. Depois, o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo (PT), que tem sofrido grande pressão por conta da atuação da Polícia Federal na Lava Jato. Por fim, o próprio vice-presidente da República Michel Temer (PMDB)  ameaça abandonar o leme da articulação política, empurrando ainda mais a presidente para o atoleiro.

Como se vê, Dilma acabou deixando que os flancos se multiplicassem e não possui qualquer habilidade política para sanar tais questões, encontrando-se cada vez mais isolada. O único componente de sorte que a presidente detém, em meio a tantos problemas, é que seus adversários tucanos, absorvidos com querelas internas, digladiam-se mais entre eles do que com ela, demonstrando a fragilidade da oposição frente a um governo cambaleante.

Entre governo e oposição vacilantes, os passivos recaem, como de costume, sobre nós, o povo. E, assim, seguimos sendo as principais vítimas – e, paradoxalmente, os grandes responsáveis – pela continuidade desta guerra. Até quando?

* O título remete ao provérbio latino: “Se queres paz, prepara-te para a guerra”.

Author: Leandro Consentino

Bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo. Atualmente é professor do Insper, da FESP-SP e do Instituto Sidarta e Superintendente Executivo da Fundação Mario Covas

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