Somos todos corruptos?

O tema da corrupção está na pauta do dia no Brasil. Operações policiais como a Lava-Jato e a Zelotes dominam o noticiário, e os prejuízos multibilionários aos cofres públicos motivam grande comoção popular. Nos últimos anos, passeatas contra a corrupção mobilizaram muito mais gente, em todo o país, do que nos tempos dos caras-pintadas ou do Mensalão.

Alguns formadores de opinião, no entanto, parecem descontentes com essa mobilização popular e disparam uma gama de argumentos falaciosos, que procuram relativizar a corrupção. São dois os tipos de falácia mais usados como cortina de fumaça para a roubalheira alheia: o primeiro é o apelo à antiguidade, na forma de “a corrupção desembarcou no Brasil com Pedro Álvares Cabral” ou “todos os governos sempre roubaram”. O segundo é o apelo à hipocrisia: querem nos convencer de que nós somos todos corruptos, pois dirigimos pelo acostamento e sonegamos o Imposto de Renda; por isso, não teríamos moral para reclamar da corrupção no governo.

Uma coletânea desses maus argumentos pode ser vista neste vídeo do professor da Unicamp Leandro Karnal, que anda circulando no Facebook:

Acho que o apelo à antiguidade é uma falácia tão fraquinha, que nem merece muita atenção neste artigo. Os erros do passado não justificam os erros do presente, e muito menos os crimes. Se você se indigna com o critério de doação das capitanias hereditárias pela Coroa portuguesa ou com o preço das privatizações das teles nos anos 1990, por que haveria de se conformar com a roubalheira contemporânea?

Já essa falácia do “você também é corrupto” parece-me mais perigosa. Ela parte de um argumento correto e moralmente impecável: o apelo à consciência de cada um para julgar os próprios atos. Ninguém há de discordar de que todos estes atos são nocivos à sociedade: dirigir bêbado, sonegar impostos, pagar propinas, faltar à aula ou ao trabalho, cruzar a rua fora da faixa de pedestres, jogar papel na rua, colar na prova. Também é verdade que todos nós somos culpados de alguma pequena desonestidade.

O professor de psicologia Dan Ariely, da Universidade Duke (EUA), concluiu, após uma série de experimentos, que as pessoas são capazes de enganar seu próprio código moral para cometer atos desonestos. Via de regra, nós gostamos de ver a nós mesmos como pessoas boas, íntegras e justas. A necessidade de afirmar essa autoimagem nos leva a agir corretamente. Mas nós podemos ser um pouco desonestos sem destruir a nossa autoimagem. Por exemplo, um funcionário de uma empresa pode não suportar a culpa de roubar dinheiro da empresa, nem mesmo um real, mas não vê problema em levar para casa uma caneta. Assim, cada pessoa vai trapacear e roubar na medida que consiga justificar esses atos desonestos para si mesmo. Recomendo assistir ao “TED talk” do professor Ariely:

OK, então nós somos todos trapaceiros e potenciais ladrões. Mas por que é errado dizer que nós somos todos corruptos, e mais errado ainda dizer que nós não temos moral para exigir probidade dos políticos?

Em primeiro lugar, vamos dar os devidos nomes aos bois. Não podemos colocar o deputado mensaleiro e o estudante colador no mesmo saco. O primeiro é um corrupto; o segundo, um mau aluno. Embora o ato de colar na prova seja desonesto, equipará-lo à corrupção no governo é incorrer na falácia do continuum, ou seja, ignorar que uma pequena desonestidade é qualitativamente diferente de uma grande desonestidade.

Em segundo lugar, quando nós cometemos nossas pequenas desonestidades de cada dia, nós o fazemos na condição de indivíduos. Já os políticos desonestos praticam a corrupção valendo-se dos mandatos públicos para os quais foram eleitos. Todos nós temos o direito de fiscalizar nossos políticos não porque nós respeitamos a fila do banco e só ultrapassamos pela esquerda, mas sim porque eles são os nossos representantes.

Espero que você não desrespeite as leis de trânsito, não sonegue impostos e não peça para o colega assinar a lista da aula daquele professor chato. Mas mesmo que você faça tudo isso, você ainda está coberto de razão quando vai para a rua reclamar dos políticos corruptos.

Author: Lucas Neves

30 anos, Diplomata de carreira. Graduado em Relações Internacionais pela USP e Mestre em Diplomacia pelo IRBr, na área de Economia Internacional.

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