Mercado de trabalho: salário e emprego

O Dia Internacional do Trabalhador é uma boa oportunidade para valorizar a luta por melhores condições de trabalho para todos nós. Pretendo, neste artigo, explicar como funciona o mercado de trabalho, de uma perspectiva muito simplificada da teoria econômica clássica, sem equações, gráficos nem jargões. Este artigo é apenas uma breve introdução ao assunto: recomendo aos interessados aprofundar a leitura, estudando inclusive os críticos da teoria clássica. Por fim, discutirei quais políticas públicas são as mais eficientes para promover o aumento do salário e do nível de emprego.

Salário e emprego são conceitos intimamente relacionados. O mercado de trabalho, como qualquer outro mercado, obedece à lei da oferta e da demanda. Os ofertantes de trabalho são, claro, os trabalhadores, que vendem a sua força de trabalho para os demandantes: as empresas. O preço do trabalho é o salário, e a quantidade de trabalho vendida pelos trabalhadores aos empresários é o nível de emprego. Vamos ver como funcionam os dois lados do mercado de trabalho:

Oferta de trabalho

Nem todas as pessoas que podem trabalhar estão trabalhando. Algumas estão desempregadas, ou seja, estão procurando trabalho, mas ainda não conseguiram. Já outras pessoas poderiam trabalhar, mas escolheram gastar seu tempo com outras atividades.

Cada família é diferente. João e Maria são dois pequenos agricultores familiares, e ambos precisam cultivar a terra para que o sítio seja produtivo. Fátima é mãe solteira, e o sustento do filho depende do seu salário de secretária. Essas pessoas precisam trabalhar de qualquer jeito, pois a sobrevivência delas depende do trabalho. Já Marcos é estudante universitário, recebe mesada dos pais e trabalha como estagiário; no semestre que vem, Marcos precisa estudar mais para se formar, e ele decidiu que se a empresa não der aumento, ele vai pedir demissão. Sônia é dona-de-casa: ela poderia conseguir emprego como cabeleireira por um salário de R$ 1.500,00, mas prefere usar seu tempo para cuidar dos filhos e da casa. Se o salão de beleza oferecesse o emprego por R$ 2.000,00, ela aceitaria e contrataria uma babá para as crianças.

A oferta de trabalho aumenta, conforme o salário sobe. Isso significa que, se os salários em uma economia aumentarem, mais gente estará disposta a arrumar emprego. Já se os salários caírem, muita gente vai pedir demissão e usar seu tempo para estudar, para cuidar da casa ou para investir seu tempo em projetos pessoais.

Demanda por trabalho

Imagine a empresa Panos & Trapos Ltda, que fabrica têxteis. Essa empresa tem cinco máquinas de costura e precisa decidir quantos costureiros vai contratar. O salário do costureiro é de mil reais.

Se essa empresa contratar cinco costureiros, em um mês, eles vão produzir dez mil reais em tecidos. Cada trabalhador foi contratado por mil reais, e o seu trabalho resultou em uma produção de dois mil reais.

A empresa resolveu contratar mais cinco costureiros para fazer um segundo turno, à noite. Esse trabalho noturno não é tão produtivo quanto o diurno: os costureiros estão mais sonolentos à noite e enxergam pior com a iluminação artificial. No fim do mês, a produção total foi de 18 mil reais. Esses cinco trabalhadores noturnos agregaram 8 mil reais na produção: cada um produziu R$ 1.600,00.

Às vezes um trabalhador falta, então a empresa resolveu contratar um costureiro substituto. Esse empregado nem sempre está costurando, pois quando todos os outros comparecem ao trabalho, não há máquina de costura disponível. Naquele mês, a produção foi de R$ 19.400,00: esse trabalhador extra foi responsável por um aumento de produção de R$ 1.400,00.

Alguns panos produzidos apresentavam defeitos, então a empresa decidiu contratar costureiros auxiliares para consertar manualmente os tecidos defeituosos. Em um mês, um costureiro auxiliar foi empregado, e a produção aumentou para R$ 20.500,00. Esse costureiro auxiliar foi responsável por um aumento da produção de R$ 1.100,00. No mês seguinte, a fábrica contratou mais um costureiro auxiliar, e a produção aumentou para R$ 21.400,00. Esse último costureiro agregou R$ 900,00 à produção da fábrica.

Pode-se observar que, a cada nova contratação, a produção da fábrica aumenta, mas aumenta cada vez menos. Os primeiros cinco costureiros tinham uma produtividade de R$ 2.000,00. Os cinco do turno da noite agregaram, cada um, R$ 1.600,00. O costureiro substituto agregou mais R$ 1.400,00 à produção; o primeiro costureiro auxiliar, R$ 1.100,00; e o segundo costureiro auxiliar, R$ 900,00. Mas o salário de todos eles é de R$ 1.000,00. Como o objetivo da empresa é obter o máximo de lucro, faz sentido que ela contrate apenas os funcionários que vão agregar valor à produção superior ao salário. O segundo costureiro auxiliar provavelmente será demitido, pois ele custa mais do que o valor que ele agrega.

Vamos supor que o sindicato dos costureiros consiga um aumento salarial para a categoria. Agora, o salário do costureiro é de R$ 1.200,00. Provavelmente, o primeiro costureiro auxiliar será demitido, pois o valor que ele agrega à produção (R$ 1.100,00) agora é menor que o seu custo para a empresa.

Esse exemplo ilustra que a demanda por trabalho diminui, conforme o salário aumenta. Ou seja, as empresas empregam mais trabalhadores a salários baixos, e menos trabalhadores a salários mais altos.

Essa leitura do comportamento das empresas deixa uma impressão pessimista: o emprego só pode aumentar se os salários diminuírem. Às vezes a economia clássica é uma ciência sombria, e isso leva muitos economistas bem-intencionados a procurar atalho em teorias alternativas, aparentemente mais humanistas. Mas nem tudo são trevas em economia: alguns países conseguem conciliar altos salários a taxas de desemprego baixas. Vamos ver alguns fatores que levam a um aumento do salário e do emprego ao mesmo tempo:

Investimento em bens de capital

Bens de capital são coisas duráveis usadas na produção. No nosso exemplo da Panos & Trapos Ltda, as máquinas de costura são bens de capital.

Vamos supor que a nossa empresa resolveu dobrar seu estoque de capital e comprou mais cinco máquinas de costura. Agora, a empresa poderia empregar o dobro de costureiros, ao mesmo salário!

Mas não existem na cidade mais doze costureiros dispostos a trabalhar pelo salário de mil reais. Alguns costureiros estão fazendo outra coisa da vida – estudando ou cuidando dos filhos, por exemplo – e só aceitariam trabalhar por um salário maior. A empresa poderia, por exemplo, aumentar o salário dos costureiros a R$ 1.200,00; promover o costureiro auxiliar para a linha de montagem, onde a produtividade é maior; e contratar dez outros costureiros. Nesse novo equilíbrio, o salário subiu de R$ 1.000,00 para R$ 1.200,00; e a quantidade de trabalhadores empregados, de 12 para 22. A empresa conta, agora, com dez costureiros no turno diurno, com produtividade de R$ 2.000,00; dez no turno da noite, com produtividade de R$ 1.600,00; e dois substitutos, com produtividade de R$ 1.400,00. Mesmo com o salário maior, todos dão lucro à empresa.

Inovações tecnológicas

Existe um certo preconceito contra a inovação tecnológica, pois há o medo de que as máquinas possam substituir os trabalhadores, resultando no temido “desemprego estrutural”. Mas esse receio é apenas parcialmente fundamentado. Em geral, inovações tecnológicas podem resultar em salários maiores e mais empregos.

Suponhamos que a empresa Panos & Trapos Ltda trocou suas velhas máquinas de costura por modelos novos, mais rápidos e fáceis de usar, que produzem muito mais tecido com menos defeitos. Como resultado, a produtividade de cada trabalhador aumentou. Como o trabalhador ficou mais produtivo após o salto tecnológico, a empresa pode aumentar as contratações, pois o trabalhador adicional agregará valor maior à produção do que o seu custo (salário). Como no exemplo anterior, isso resultará em mais pessoas empregadas, a um salário maior.

É verdade que alguns saltos tecnológicos podem causar desemprego estrutural. As antigas máquinas de costura talvez fossem tão rudimentares, que pudessem ser operadas por um costureiro semianalfabeto. As novas máquinas podem requerer conhecimentos de informática para serem operadas. O costureiro semianalfabeto não tem mais função na fábrica – é o desempregado estrutural.

Em vez de temer o avanço tecnológico por medo do desemprego estrutural, devemos, sim, desejar uma melhor educação e capacitação profissional da mão-de-obra, para que os trabalhadores continuem sendo úteis em uma economia de alta tecnologia. Daí a importância do próximo ponto:

Educação e capacitação profissional

Imagine que a prefeitura da cidade onde a Panos & Trapos Ltda tem sua fábrica passou a oferecer um curso técnico gratuito para costureiros. Todos os costureiros da cidade fizeram o curso e tornaram-se profissionais melhores: agora, são capazes de costurar com menos erros, fabricando um tecido de qualidade superior.

No começo desta história, a Panos & Trapos Ltda demitiu o segundo costureiro auxiliar, pois o valor que ele agregava à produção (R$ 900,00) era menor que o seu salário (R$ 1.000,00). Agora, aquele costureiro está mais capacitado e poderá agregar um valor de R$ 1.200,00 à produção da empresa. Ele poderá ser contratado de novo.

Políticas públicas que promovem o salário e o emprego

O investimento produtivo, a inovação tecnológica e a capacitação da mão-de-obra são três fatores que resultam em aumento do nível de emprego com melhores salários. Não é à toa que as economias que estão se desenvolvendo mais rapidamente, como a da Coreia do Sul, são aquelas que investem mais intensamente em educação, em tecnologia e em bens de capital.

A capacitação da mão-de-obra tem início com uma boa educação de base. O Brasil já conseguiu colocar quase todas as crianças na escola primária, mas a qualidade dessa educação deixa muito a desejar: muitos saem da escola analfabetos funcionais. Esses cidadãos que tiveram péssima educação básica terão dificuldade para receber qualificação técnica e profissional. O triste resultado é que esses cidadãos ficarão de fora do mercado de trabalho qualificado, que oferece as melhores condições trabalhistas e paga os melhores salários.

O investimento em bens de capital e em tecnologia depende de diversas variáveis macroeconômicas. Entre elas, o acesso ao crédito, por meio de taxas de juros baixas; e um ambiente econômico estável, com a inflação sob controle, que permita um investimento produtivo com risco baixo.

Neste Dia do Trabalhador, é importante lembrar que nossos políticos podem fazer muito para valorizar o trabalhador brasileiro com mais empregos e salários mais dignos. Se os nossos governantes realmente querem promover o crescimento sustentável do emprego e do salário, é necessário assumir um compromisso com uma política econômica responsável e com a educação básica de qualidade.

Author: Lucas Neves

30 anos, Diplomata de carreira. Graduado em Relações Internacionais pela USP e Mestre em Diplomacia pelo IRBr, na área de Economia Internacional.

Share This Post On