República X Populismo: conheça as ideias de Gloria Álvarez

Se você acha que ela é uma carismática jovem que discursou de modo contundente em Zaragoza no 1° Parlamento Iberoamericano da Juventude (veja o vídeo ao final do texto), bom, você não sabe nada sobre Gloria Álvarez.

A guatemalteca toma uma garrafinha d’água na mão e ergue-a ao alto, olhando-a com um assombro que lhe brilha os olhos. Qual é a diferença entre a bola azul cheia de minerais que vagava pelo espaço no tempo das cavernas e a bola azul cheia de minerais que vaga pelo espaço hoje? A mente humana.

Na última quinta-feira, dia 09 de abril, os Filhos da Nova República tivemos o privilégio de assistir ao seminário da cientista política que vem compartilhando o seu pensamento em vários países, a convite do Instituto Fernando Henrique Cardoso. O que ouvimos foi surpreendente: honestidade intelectual e um golpe duro na doutrina do populismo.

 República

Gloria foi buscar em Aristóteles o argumento lógico-racional para defender a República. Gloria, como nós, ama a República.

Uma sociedade pode ser governada de três formas: por uma pessoa, na monarquia, que pode se degenerar em tirania; por um grupo de nobres, na aristocracia, que pode se degenerar na oligarquia; ou por todas as pessoas, na democracia, que pode se degenerar na demagogia. Apenas a República equilibra estes três tipos de organização, porque se estrutura em instituições que representam aquelas três forças: um chefe de Governo, um Parlamento e o povo, por meio da mídia e dos mecanismos de atuação direta da vontade popular.

Populismo

Atualmente, qual é a maior ameaça aos princípios republicanos? A cientista política, também licenciada em Relações Internacionais, diz que é o Populismo. Segundo ela, governos populistas são autoritários e chegam ao poder com base na mentira, na manipulação e no que Gloria chama de “egoísmo sem inteligência”, pelo qual o líder busca satisfazer seus desejos naturalmente humanos a qualquer preço, ou pior, às custas do povo, ignorando as consequências deletérias: a corrupção é a gasolina do populismo. O dinheiro que se está roubando hoje é a violência de amanhã.

A expositora nos apresenta seu manual do populismo, com o qual podemos avaliar as consequências da doutrina populista e em que estágio se encontra o processo de sua implementação em nossa República. Segue a cartilha:

 Dividir a sociedade com base no ódio;

  1. Eliminar qualquer oposição no Legislativo;
  2. Comprar juízes para evitar julgamentos e penas;
  3. Reformar a Constituição;
  4. Limitar a propriedade privada;
  5. Eliminar a liberdade de imprensa e de expressão.

 Parece coincidência?

Ódio

O discurso populista é baseado na dicotomia: rico e pobre, branco e negro, nacional e estrangeiro, trabalhador e empregador, elite e povo. Todo governo populista propaga uma ideia abstrata e conveniente de povo. O povo representa o sumo das virtudes. O povo nunca erra, é desinteressado, honrado, inocente, e dotado de instinto político infalível! E quem é o representante maior desse povo? O líder supremo, oras, autêntico Salvador da Pátria, sem o qual todos pereceriam. É a mãe dos pobres, o pai dos injustiçados e por aí vai o charlatanismo messiânico.

Mas há que haver um anti-povo também. Afinal, o Salvador da Pátria precisa de uma ameaça da qual ele defenda seu povo. Os inimigos do povo são eleitos meticulosamente pelo líder supremo e essa ideia é abraçada não com razão e lógica, mas com paixão. São os gorilas dos Kirchner, os coxinhas do PT, a classe média de Marilena Chauí, os yankees, os capitalistas opressores, o mercado financeiro, os reacionários gourmet que odeiam os pobres, os neoliberais, o imperialismo…

Vitimismo

O populismo se apoia, mas também reforça, a crença de que precisamos transferir a riqueza, e de que criar riqueza é impossível. Isso é ensinado às crianças pelos próprios pais desde cedo, pelas escolas e universidades, pelas telenovelas, pelo rádio, pelas músicas de contestação que contam o sofrimento do povo esquecido pelos governantes mas que não contam o orgulho daqueles que venceram com o próprio suor.

Gloria dá sua versão da dinâmica cíclica do vitimismo: a pessoa recebe uma educação de vitimismo que a ensina que há uma luta de classes e que ela é oprimida sem oportunidades; por isso não desenvolve suas habilidades e tem baixa autoestima; torna-se insegura de si mesma e da capacidade de progredir pelo seu esforço; adquire pânico de assumir riscos e rejeita qualquer iniciativa de empreender algo novo; vê no governo uma mina de ouro, com cargos estáveis que resolveriam sua vida, sem que ela precise produzir nada ou quase nada; promete o impossível ao povo para que ele a ame, falando a ele de opressão e de falta de oportunidades; é eleita pelo povo e fornece a ele a mesma educação de vitimismo que recebeu.

A educação de vitimismo facilita a dominação da população por um líder carismático e, ao mesmo tempo, produz os futuros líderes populistas.

Direita = Esquerda

Gloria Álvarez propõe o debate entre República e Populismo, apontando que não faz mais sentido discutirmos Direita e Esquerda, uma vez que ambas podem e já usaram a doutrina populista. Ambas já receberam o apoio do “povo” – cansado da injustiça recebida dos governos anteriores -, para destruir os fundamentos republicanos e se manter no poder a qualquer custo.

Enquanto discutimos Direita e Esquerda, governos populistas como os de Cuba e Venezuela são elogiados por muitos, nada obstante sigam matando e torturando opositores, reescrevendo constituições, destruindo os direitos de propriedade e de liberdade, monopolizando e calando a imprensa, tudo a pretexto de vencer a opressão e/ou de garantir a igualdade.

Gloria Álvarez estima que após a queda de um líder populista que haja implementado todo o manual da doutrina, uma sociedade leva cerca de 30 anos para voltar ao estágio cultural, econômico, político e social que tinha antes de sua ascensão, a exemplo de China e União Soviética.

Carta de direitos do Papai Noel

Se a República é tão boa, por que ela não é, digamos, popular?

Enquanto um governo populista quer fazer tudo e promete dar tudo, um governo republicano equivale a um árbitro de futebol. Ele manterá o jogo dentro de certas regras que garantam um mínimo de estabilidade e segurança às pessoas: o Estado Democrático de Direito. Mas todos vão xingá-lo.

Gloria Álvarez nos lembra a lição dos gregos, segundo a qual os únicos direitos que podem ser concedidos e garantidos com igualdade perante a lei – sem que uns se tornem mais iguais que os outros -, são a vida, a propriedade e a liberdade. Esses direitos podem ser garantidos a cada homem e a cada mulher de modo autônomo, porque não dependem da renúncia de direitos de outras pessoas. O papel da lei seria, então, apenas proteger esses três direitos das pessoas de serem violados por outras pessoas.

Mas e os outros direitos? Direito à saúde, direito à alimentação equilibrada, direito ao lazer, direito a vagas em creches, direito ao transporte, direito à INTERNET, direitos, direitos e mais direitos?

Para Gloria, qualquer lista que desborde daqueles três direitos básicos a serem garantidos pelo Estado exigirá a renúncia de alguém. Direitos custam dinheiro e as pessoas não nascem com vouchers. É preciso produzir a riqueza. Não existe nada grátis. Ela diz que, se alguém está lhe prometendo algo grátis, ele provavelmente vai tirar de outra pessoa.

Até aí tudo bem, mas um dia as riquezas acabam. Penso que precisamos, sim, dar condições mínimas de vida às pessoas carentes, mas deve haver parcimônia e moderação na execução de políticas públicas redistributivas. Como disse Thomas Sowell, “é surpreendente que as pessoas que pensam que não temos como pagar por médicos, hospitais e medicamentos, de alguma forma acreditam que podemos pagar por médicos, hospitais, medicamentos e uma burocracia governamental para administrá-los”.

A elaboração de listas extensas de direitos ilude a população, convencendo-a de que podem receber tudo de graça. A riqueza necessária para dar efetividade a uma lista imensa de direitos será então expropriada e transferida dos “opressores” para os “oprimidos”, esses sim, seus reais merecedores, desde que apoiem o Salvador da Pátria. Quando a conta não fecha e as promessas não se cumprem, culpa-se ainda mais o opressor, reclama-se ainda mais poder, e exige-se ainda mais sacrifício da população. É o modus operandi.

Menos Estado. Mais Sociedade.

Quando perguntei como convencer as pessoas de que um Salvador da Pátria não é solução se a maior preocupação delas é ter o que comer e o líder populista lhes dá isso, Gloria respondeu:

É preciso falar ao coração das pessoas.

Gloria entende que não adianta falarmos de liberalismo econômico aos mais pobres. É preciso estar com eles. Menos Bastiat, Mises, Rand e Friedman. Mais Hayek. Menos Estado, mais sociedade.

Ela explica que a raiz da opressão na América Latina não é genética, por “sermos descendentes de índios pacíficos e preguiçosos”, nem ambiental, por “sermos moles em razão do calor que aqui faz”, mas sim psicológica. É preciso atuar na autoestima das pessoas e empoderá-las, mostrando-lhes que são capazes de progredir pelo seu próprio esforço e que podem se tornar independentes.

As pessoas que acreditam no Salvador da Pátria não estão erradas. “Se não tenho justiça, pelo menos apoiando o Salvador da Pátria eu terei uma bolsa-alimentação”. Errados estamos nós, se nos voltamos contra essas pessoas e passamos a odiá-las – dividindo a sociedade com base no ódio, exatamente como convém ao líder populista -, porque isso nos impede de entender seus sonhos e suas motivações. Ao invés de caminharmos juntos, construímos um muro que nos impedirá de convencê-las de seu potencial e de que elas podem progredir por seu próprio esforço.

É preciso estar com essas pessoas e construir com elas. É preciso chegar a elas e cantar seus exemplos de superação, contar suas histórias de vitória no rádio, nos ícones, nas telenovelas, nas camisetas, nos filmes, nas redes sociais. É preciso enaltecer o esforço individual e o orgulho de suas conquistas.

Se eu pudesse acrescentar algo ao seminário de Gloria Álvarez, diria que é preciso investir em educação política para vencer o populismo pela via democrática. As pessoas precisam entender como as instituições funcionam para que, por meio das urnas e da fiscalização da atuação dos políticos, a República saia fortalecida.

Vamos começar?

Agradecemos ao diretor executivo do iFHC, Sérgio Fausto, pelo convite.

Author: Fábio Magro

Formado em Direito pela UNESP. Pós-graduado em Direito Processual Civil pela Escola Paulista da Magistratura de São Paulo. Desde 2008 é assistente jurídico do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

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