O leilão de almas

Olá, meus amigos! Obrigado por acessarem nosso portal!

Era para eu redigir algumas linhas inaugurando minha participação escrita aqui no Filhos da Nova República.

Em vez disso, resolvi transcrever um diálogo totalmente despretensioso e ocasional que aconteceu nesta sexta-feira, na rua, e foi gravado com um celular por um desconhecido (abraço aí!) que procurava se abrigar da chuva paulistana debaixo de uma marquise. Ali, por algum motivo entre climático e místico, encontrou outro desconhecido (abraço pra ti também!) e travaram conversa.

O vídeo chegou a mim pelo facebook e achei que seria uma oportunidade de reflexão para todos nós.

Eis o diálogo entre um cidadão brasileiro, pessoa do povo… e outro cidadão brasileiro, também pessoa do povo.

– A “CDT” aqui, ó!

– Não, mai você veio por quê?

– AHN?

– Quem convidou?

– Nói viemo lá do Grajaú, cara. Só que o cara da pirua, o cara saiu fora. Tá vendo ali, ó? O baixinho de vermelho ali, ó?

– Sim, mas quem convidou você? Quem, que movimento é esse?

– Doooo… Da “CDT” aqui, ó, ó! – aponta para as garrafais letras em sua camiseta vermelho-sangue que significam “Ciclana de Tal”.

– Ah, mai por que vocês tão fazendo?

– É manifestação, é… é… acompanhar a…

– Mai quem convidou? Você sabe por que que é, (ou) não?

– Saaabe, ali ó! O coordenador tá ali, ó!

– Mai não. Eu sei. Mai VOCÊ sabe?

– Peraí, se quebrar aí fudeu – protege da intempérie um cigarro com a mão semi-seca.

– Você sabe o quê que tá acontecendo (ou) não? Eu vi um monte de gente aí de vermelho, o que que tá acontecendo?

– Ééé manifestação da “CDT”, mano.

– Mas, pelo que cs tão pedindo?

– Ash qui tamo querendo tirá a Dilma do poder, mano.

– Vocês tão querendo tirar?

– EU NÃO, eu só… – e ri, orgulhoso da própria vergonha, ou envergonhado do próprio orgulho.

– Não, não! Mas a “CDT” quer tirar?

– É… (…) desses bagúio aí.

– Ou não é o contrário?

– Eu num sei… IHHH, mano! Olha aí! Tá caindo água no seu chopp aí.

– Mai num é o contrário não?

– Não… Eu nem sei, na verdade. Nem sei. Eles me chamô pra vim pra cá…

– Nem sabe!? C só veio – conjectura um deles.

– Nem sei. Ééé!

– Mas eles pagaram alguma coisa?

– Pagaram.

– Quanto eles pagaram?

– Trinta conto – ou 9,23 dólares.

– Trinta reais pra cada pessoa?

– Cada pessoa, pra tomar essa chuva. Tomei chuva pra caraio, mano!

– Haha! Trinta reais! Trinta reais por pessoa?!

– Trinta reais! Pra tomá essa chuva toda!

Tenho minhas posições, e não as escondo de ninguém. Quem me conhece de perto sabe o que eu penso e vocês também logo saberão.

Mas, como acredito na democracia e na liberdade, procuro respeitar os posicionamentos contrários e o direito das pessoas de os manifestarem, não sem criticar os pontos com os quais não concordo. O pluralismo político é saudável para o debate de ideias e imprescindível para que encontremos um caminho de justiça e de dignidade para o nosso país. Cada um vê a coisa de um ângulo, certo? Fora que está lá no artigo primeiro, inciso quinto, da Constituição Federal, como um dos fundamentos do nosso Estado Democrático de Direito.

Por tudo isso, resolvi não ser chato logo de cara e fazer apenas um pedido a vocês:

Neste domingo, não se vendam!

Author: Fábio Magro

Formado em Direito pela UNESP. Pós-graduado em Direito Processual Civil pela Escola Paulista da Magistratura de São Paulo. Desde 2008 é assistente jurídico do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

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