O combinado não sai caro

_Voto é coisa séria! – dizem os que temem pela estabilidade do governo recém eleito frente às manifestações à vista. É verdade. O resultado das urnas deve ser respeitado. Um dos fundamentos dos regimes democráticos é a estabilidade das regras, a segurança jurídica. É a velha história: o combinado não sai caro.

Em repúblicas presidencialistas como a nossa, é melhor pensar muito bem antes de decidir quem vai comandar o país. Os mandatos têm duração fixa e não existe caminho fácil para o povo substituir o governo antes do próximo ciclo eleitoral. É como um contrato com uma cláusula de fidelidade. Mais difícil de cancelar do que aquela sua assinatura da NET.

Todo combinado, naturalmente, envolve pelo menos duas partes. Se é importante que o cidadão cumpra sua parte e respeite os resultados das eleições, é igualmente importante que o governo cumpra a sua também, e honre as promessas e compromissos assumidos durante a campanha. Afinal, é com base no discurso da campanha que os eleitores fundamentam sua decisão de voto. Um mandato eletivo não é um cheque em branco. Pelo contrário, é um contrato entre o político eleito e seus eleitores.

A campanha presidencial de 2014 foi a mais disputada desde a redemocratização. O projeto apresentado pelo PT, retratado nas famosas propagandas de João Santana, saiu vencedor. Mais de 54 milhões de brasileiros apertaram o “13 confirma” no último 26 de outubro. O que exatamente essas pessoas escolheram?

A julgar pelos anúncios de televisão e pelos discursos da campanha, pode-se dizer que os eleitores votaram contra o aumento dos juros, contra os banqueiros no comando do Banco Central, contra o corte de verbas para a educação, contra o corte de direitos trabalhistas, contra o corte em programas sociais, enfim, contra as “medidas impopulares” que o candidato tucano afirmava necessárias para recolocar o país nos trilhos. Esse foi o projeto vencedor nas urnas. É para isso que o PT foi reconduzido ao Palácio do Planalto.

Se voto é coisa séria, campanha eleitoral também deveria ser. Vender ilusões e fazer promessas impossíveis para depois, com o regulamento debaixo do braço, dizer que está tarde demais para reclamar pode até não ser ilegal, mas é certamente imoral. Não adianta vender gato por lebre e achar que o povo aceitará calado.

Afinal, o combinado não sai caro.

Author: Helder Gonzales

Helder Gonzales é formado em Relações Internacionais pela USP. Desde 2008 é diplomata. Estudou Diplomacia no Instituto Rio Branco e na Academia Diplomática Andrés Bello, no Chile.

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